Aos 30 anos, Thais Neres Krindges criou o projeto **Cultivando Bem-Estar no Meio Rural** após perceber desafios que são comuns a muitos agricultores.
Após enfrentar a depressão e quase chegar ao burnout trabalhando no campo, a agricultora Thais Neres Krindges, de 30 anos, criou uma iniciativa voltada à saúde mental em comunidades rurais do Oeste de Santa Catarina — uma das regiões agroindustriais mais importantes do mundo. O projeto, que em 2025 alcançou cerca de mil trabalhadores, agora abrirá portas para que ela participe de um evento na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
“Eu acho que é um sinal de que todo o trabalho que estou fazendo vale a pena”, afirmou.
👩🌾 Neste mês dedicado às mulheres, Thais viajará para Massachusetts, onde participará como embaixadora do **Brazil Conference**, encontro que reúne lideranças de diferentes áreas para debater o futuro do Brasil.
**Vida no campo**
No interior de Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, Thais trabalha na produção de leite, batata-doce, açúcar mascavo e outros alimentos, enquanto sonha em construir a própria agroindústria familiar. Segundo ela, quem dita o ritmo do trabalho no campo é o próprio clima.
No entanto, essa autonomia, somada ao isolamento geográfico, à dificuldade de acesso a atendimento médico e à ausência de uma renda fixa, acabou impactando sua saúde mental.
Ao g1, Thais explicou que o projeto **Cultivando Bem-Estar no Meio Rural** surgiu justamente para atender uma demanda pouco debatida no campo. Em conversas com outros agricultores, ela percebeu que muitos também enfrentavam problemas como estresse, ansiedade e depressão, assim como ela, mas sem ter clareza ou informação suficiente para reconhecer os sintomas.
Um relatório divulgado pela **Organização Mundial da Saúde (OMS)** em 2022 apontou que moradores de áreas rurais enfrentam, de modo geral, mais dificuldades para acessar tratamentos e recursos voltados à saúde mental em comparação com a população das cidades.
Ao g1, a psicóloga Marisol Vincensi Massaroli, que há 20 anos trabalha com famílias e equipes ligadas ao agronegócio, explica que os trabalhadores do meio rural lidam com uma série de desafios muitas vezes desconhecidos por quem vive em áreas urbanas.
“Não é apenas o desafio do clima. Há também questões relacionadas às políticas públicas, ao mercado e à dependência do cenário global para que consigam obter um bom valor pelos produtos. Além disso, existe sempre a expectativa e a fé de que o clima colabore”, afirma.
Ela destaca ainda que aspectos culturais podem dificultar o debate sobre saúde mental no campo. “A situação tem melhorado, mas ainda existe uma cultura muito fechada e patriarcal. Muitas vezes se acredita que os problemas se resolvem apenas com trabalho. Isso faz com que seja difícil olhar para questões relacionadas às pessoas, às relações, à comunicação e ao planejamento”, acrescenta.
### Projeto percorre comunidades
Em 2025, o projeto **Cultivando Bem-Estar no Meio Rural** realizou 21 encontros em seis municípios. As atividades contaram com a participação de especialistas em saúde mental e também incluíram momentos de convivência e alimentação coletiva.
Segundo Thais, esses encontros têm um papel importante na criação de vínculos. “Acolher também é sentar à mesa, compartilhar e fortalecer as relações”, explica.
“Nosso objetivo é atuar na prevenção, promover a conscientização e reforçar a importância do cuidado com a vida e com a saúde mental no campo, mostrando que é possível ter qualidade de vida e bem-estar também no meio rural”, afirmou.
Para este ano, Thais planeja incluir nos encontros um novo tema: a sucessão familiar nas propriedades rurais.
“Como agricultora, vivo isso de perto durante a transição da propriedade dos meus sogros. Percebo o quanto conciliar a sucessão com a saúde mental dentro das famílias é fundamental. Não se trata apenas de gestão ou produção, mas também de relações, emoções e continuidade”, explicou.
### Relatos que marcaram
Durante os encontros do projeto, diversas histórias chamaram a atenção de Thais. Um relato, no entanto, no final de 2025, a emocionou profundamente.
“Depois de um encontro, ficamos conversando — sempre procuro reservar um tempo para ouvir as pessoas — e uma senhora com mais de 80 anos me disse que, se eu tivesse chegado dois anos antes com esse projeto, talvez a filha dela ainda estivesse viva. Segundo ela, a depressão levou a vida da filha, e tudo o que foi compartilhado naquela tarde poderia ter feito diferença”, contou.
Segundo Thais, o depoimento a impactou profundamente. “Aquilo me tocou muito. Não apenas pela dor dela, mas pela confirmação de que falar sobre saúde mental salva vidas. Eu já estive em uma situação parecida e sei o que isso significa. No meu caso, quase perdi uma pessoa que eu amava para o suicídio. Essa conversa reforçou ainda mais meu propósito e a urgência de levar essa mensagem para o maior número possível de comunidades.”
Em outro momento marcante, um simples pedido de abraço também a emocionou. “Vivemos em um ritmo tão acelerado que, muitas vezes, esquecemos o quanto nossa própria vida é valiosa e bonita. Esses encontros nos fazem parar, refletir e valorizar isso”, afirmou.
### Quais são os desafios da saúde mental no campo?
Em 2024, a psiquiatra Bianca Schwab, integrante da diretoria da Associação Catarinense de Psiquiatria (ACP), destacou que trabalhadores rurais enfrentam uma série de desafios específicos que podem favorecer o surgimento de transtornos mentais.
Entre os principais fatores estão:
* **Isolamento social**, com menos oportunidades de convivência e interação com outras pessoas;
* **Estresse econômico**, já que a renda no campo pode variar conforme as condições climáticas, oscilações do mercado e mudanças nas políticas agrícolas;
* **Condições de trabalho muitas vezes precárias**, que aumentam a pressão sobre os produtores;
* **Dificuldade de acesso a serviços de saúde**, especialmente em regiões mais afastadas;
* **Exposição a pesticidas**, apontada como um possível fator de risco para depressão e outros transtornos mentais.
Segundo a psiquiatra, iniciativas que promovem **espaços de diálogo e troca de experiências**, como os encontros organizados por Thais, contribuem para reduzir o isolamento social e fortalecer o sentimento de comunidade e apoio entre os participantes.
Ela destaca ainda que a participação de **profissionais da área da saúde** nesses encontros facilita o acesso a informações importantes, que podem ajudar na prevenção de doenças e na melhoria do bem-estar geral dos agricultores.



