Banco Master: entenda como operações bilionárias levaram instituição ao centro de investigação por fraude

Banco Master: entenda como operações bilionárias levaram instituição ao centro de investigação por fraude

Instituição captava recursos por meio de CDBs com juros elevados e vendeu carteiras de crédito ao BRB; Polícia Federal investiga R$ 12,2 bilhões em ativos que, segundo as apurações, não existiam

O caso envolvendo o Banco Master se tornou uma das maiores investigações recentes do sistema financeiro brasileiro. No centro das apurações estão operações bilionárias realizadas entre o banco, empresas intermediárias e o Banco de Brasília (BRB), instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.

Segundo a Polícia Federal, o BRB desembolsou aproximadamente R$ 17 bilhões na compra de carteiras de crédito ligadas ao Master. Desse total, cerca de R$ 12,2 bilhões são investigados porque os créditos negociados podem não ter existido de fato.

A investigação tenta esclarecer como essas operações foram montadas, quem participou delas e de que maneira bilhões de reais circularam entre as instituições antes de o Banco Central determinar a liquidação do Master.

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Primeiro passo: Master captava dinheiro oferecendo CDBs

Uma das principais formas utilizadas pelo Banco Master para conseguir recursos era a emissão de Certificados de Depósito Bancário, os CDBs.

Na prática, quando um cliente compra um CDB, ele está emprestando dinheiro para o banco. Em troca, a instituição promete devolver o valor no futuro acrescido de juros.

O Master oferecia taxas de remuneração consideradas altas, tornando os investimentos atraentes para parte do mercado.

Outro fator importante era a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), respeitados os limites estabelecidos pelas regras do fundo. Essa proteção ajudava a tornar os produtos mais atraentes para investidores, mesmo diante de taxas superiores às oferecidas por muitos concorrentes.

Por que o banco precisava captar tanto dinheiro?

O problema aparece quando uma instituição precisa continuar levantando volumes cada vez maiores de recursos para manter suas operações.

As investigações indicam que o Banco Master enfrentava uma grave crise de liquidez, ou seja, dificuldades para ter dinheiro disponível suficiente para cumprir suas obrigações no momento necessário.

Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação da instituição, citando deterioração da situação financeira e violações de normas do sistema financeiro.

Liquidez é diferente de patrimônio. Um banco pode possuir ativos registrados, mas ainda assim enfrentar problemas se não conseguir transformar esses ativos rapidamente em dinheiro para pagar clientes e credores.

Venda de carteiras de crédito passou a movimentar bilhões

Outro ponto central da investigação envolve as chamadas carteiras de crédito.

Uma carteira de crédito é formada, por exemplo, por empréstimos realizados a clientes. Esses contratos representam dinheiro que o banco tem direito a receber no futuro.

Instituições financeiras podem vender essas carteiras umas às outras.

Foi nesse tipo de operação que o BRB pagou aproximadamente R$ 17 bilhões ao Banco Master, segundo relatório da Polícia Federal.

O problema é que uma parcela enorme desses ativos passou a ser questionada.

PF investiga R$ 12,2 bilhões em créditos supostamente inexistentes

Segundo as investigações, R$ 12,2 bilhões das carteiras negociadas com o BRB apresentavam fortes indícios de irregularidades.

Documentos da Polícia Federal apontam que o Banco Central analisou os contratos e não conseguiu confirmar a existência dos créditos que sustentariam essas operações.

A investigação trabalha, portanto, com a hipótese de que o BRB tenha transferido bilhões ao Master em troca de ativos que não tinham correspondência com empréstimos reais.

Essa é uma das partes mais importantes do caso porque, em uma negociação normal, o comprador de uma carteira paga para adquirir o direito de receber dívidas existentes.

Se essas dívidas não existem, o ativo vendido perde a própria base econômica que justificaria seu valor.

Tirreno aparece no centro das operações

Parte das carteiras investigadas teria sido originada pela empresa Tirreno.

Segundo documentos divulgados sobre a investigação, o mecanismo funcionaria em etapas.

A Tirreno aparecia como originadora dos créditos. Esses ativos eram repassados ao Banco Master e, posteriormente, revendidos ao BRB.

Um relatório produzido no Senado descreve a suspeita de que o Master conseguia receber dinheiro à vista do BRB enquanto não precisava desembolsar imediatamente os mesmos valores para a empresa que aparecia como originadora, criando um fluxo de caixa artificial.

A Polícia Federal continua investigando as responsabilidades individuais dos envolvidos.

O que significa criar fluxo de caixa artificial?

Um exemplo simplificado ajuda a entender.

Imagine que uma empresa diga possuir R$ 1 bilhão em empréstimos concedidos a clientes.

Ela transfere esses supostos direitos de recebimento para um banco.

Depois, o banco vende esses créditos para uma terceira instituição e recebe imediatamente R$ 1 bilhão.

Se os empréstimos originais não existirem, entretanto, a terceira instituição desembolsou dinheiro por um ativo sem o valor informado.

Enquanto isso, quem recebeu o pagamento ganhou liquidez imediata.

É justamente esse tipo de mecanismo que está sendo analisado pelas autoridades no caso Master.

BRB afirma que foi vítima

O Banco de Brasília sustenta que foi vítima das irregularidades.

A instituição informou que substituiu dirigentes envolvidos nas operações e vem colaborando com as investigações.

O caso também provocou medidas do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Em setembro, o TCDF determinou o bloqueio de até R$ 2,7 bilhões em bens e contas de cinco ex-dirigentes do BRB, com o objetivo de preservar recursos para um eventual ressarcimento.

O valor definitivo de eventuais prejuízos ainda está sendo apurado.

Previdências de servidores também tinham dinheiro no banco

A crise ultrapassou investidores particulares e instituições financeiras.

Regimes próprios de previdência de servidores de estados e municípios possuíam aproximadamente R$ 1,8 bilhão aplicado no Banco Master, de acordo com informações reunidas na investigação.

Esses fundos administram recursos destinados ao pagamento futuro de aposentadorias e pensões de servidores públicos.

Por isso, a exposição dessas entidades ao banco aumentou a dimensão econômica e política do caso.

FGC também entrou no centro da discussão

O Fundo Garantidor de Créditos protege determinados investimentos bancários dentro de limites específicos.

O fundo é mantido pelas próprias instituições financeiras e pode ressarcir clientes quando um banco quebra ou é liquidado.

Investigações posteriores também levantaram questionamentos sobre a estratégia de captação do Master utilizando produtos cobertos pelo FGC.

Em decisão de setembro, o ministro Flávio Dino citou uma denúncia enviada à Comissão de Valores Mobiliários em 2022 que já apontava preocupação com ativos de baixa liquidez comprados com recursos captados por produtos protegidos pelo FGC.

Segundo a decisão, mais de R$ 3 bilhões de aproximadamente R$ 5 bilhões analisados naquela denúncia estariam aplicados em ativos de pouca liquidez ou qualidade questionável.

Fundos e ativos sobreavaliados também são investigados

O caso Master não está limitado às operações com o BRB.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também analisou operações envolvendo fundos relacionados ao grupo.

Em setembro de 2026, a autarquia condenou Daniel Vorcaro e outras pessoas e empresas por uma operação considerada fraudulenta envolvendo um fundo imobiliário.

Vorcaro recebeu multa de R$ 20 milhões, enquanto o Banco Master foi multado em R$ 12,5 milhões. As penalidades totais naquele processo chegaram a R$ 201 milhões.

O processo tratava, entre outros pontos, de ativos sobreavaliados e operações realizadas no mercado secundário.

Precatórios bilionários passaram a integrar as apurações

Outro braço do caso envolve precatórios adquiridos pelo Master.

Precatórios são dívidas reconhecidas judicialmente que governos precisam pagar.

Em setembro, o Conselho Nacional de Justiça determinou o cancelamento de R$ 2 bilhões em precatórios considerados irregulares, ampliando uma decisão anterior que já havia alcançado outros R$ 4,7 bilhões.

Os títulos haviam sido adquiridos pelo Banco Master.

As autoridades investigam possíveis irregularidades na emissão e negociação desses créditos.

Banco Central liquidou Master em novembro de 2025

A deterioração da situação culminou na intervenção do Banco Central.

Em novembro de 2025, a autoridade monetária decretou a liquidação do Banco Master.

Entre as razões apontadas estavam grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro.

A liquidação significa que o banco deixa de operar normalmente e passa por um processo destinado a organizar ativos, dívidas e obrigações com clientes e credores.

Daniel Vorcaro está no centro das investigações

O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, é uma das principais figuras investigadas.

A Polícia Federal conduz a Operação Compliance Zero, que apura as operações financeiras e possíveis crimes relacionados ao banco.

Vorcaro já prestou depoimentos e, por meio de sua defesa, contesta diferentes acusações feitas ao longo das investigações.

Por isso, é importante diferenciar as conclusões administrativas já tomadas por órgãos como Banco Central e CVM das suspeitas criminais que ainda dependem de investigação e julgamento.

Como o esquema investigado funcionava, de forma simplificada

Em linhas gerais, as autoridades investigam uma sequência que teria funcionado da seguinte forma:

1. O Banco Master captava bilhões de reais no mercado, principalmente oferecendo CDBs com remuneração elevada.

2. Parte desses recursos era direcionada para ativos e operações financeiras de diferentes níveis de liquidez.

3. Empresas apareciam como originadoras de grandes carteiras de crédito.

4. O Master adquiria ou registrava essas carteiras e posteriormente as revendia.

5. O BRB comprava os ativos e transferia bilhões de reais ao Master.

6. Investigações posteriores encontraram indícios de que R$ 12,2 bilhões dos créditos vendidos não possuíam lastro comprovado.

Assim, recursos reais teriam sido transferidos em troca de ativos cuja existência ou valor estão sendo questionados.

Caso ainda está longe de terminar

Mesmo depois da liquidação do Master, as investigações continuam.

Polícia Federal, Banco Central, CVM, tribunais de contas, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal possuem procedimentos relacionados a diferentes aspectos do caso.

A apuração envolve desde carteiras de crédito e fundos de investimento até precatórios e possíveis responsabilidades de executivos e agentes públicos.

O tamanho definitivo do prejuízo ainda não está fechado, e novas informações podem mudar partes do quadro atual.

Até o momento, o ponto central confirmado pelas investigações é que bilhões de reais circularam entre o Master e outras instituições, enquanto autoridades encontraram fortes indícios de que uma parcela expressiva dos ativos utilizados nessas operações não possuía o lastro informado.